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Prudência: Tirem seu refri de “nossa” vitória-régia

Setembro de 2018 Fazer turismo no Brasil, se deparar com algum espaço físico e social poluído por lixo abandonado em local impróprio, não pode se tornar numa cena corriqueira. As cidades deveriam ser responsabilizadas financeiramente, ao apresentar seus cartões postais diferentes daqueles exibidos nos canais de TV e nos sites da internet, e a indenização revertida em verba destinada à preservação de seus próprios ecossistemas naturais. A rede turística é considerada uma indústria limpa a qual precisa ter o compromisso de zelar pela natureza por parte de qualquer um de seus colaboradores. O passeio feito a uma comunidade próximo ao encontro das águas dos rios Negro e Solimões em Manaus impactou devido a uma paisagem indesejada. Um turista não se contentou com a beleza de uma vitória-régia e abandonou sua latinha de refrigerante sobre ela, provavelmente, como forma de se apropriar de todo o ecossistema no entorno. É fato antigo os seres humanos dominarem os espaços naturais de modo f...

Compaixão: A publicidade de perfume e a natureza

Julho de 2018 A publicidade sempre vendeu produtos acompanhados de sensações. As propagandas de carro projetam os consumidores até situações a partir das quais desejos e falhas do subconsciente podem ou não ser resolvidos, dependendo da condição financeira do cliente. As produções publicitárias de marcas de perfume fazem o espectador “flutuar” ao “ver um aroma” não aspirado, emergindo à “flor da pele” emoções e carências afetivas. Este nicho de mercado usa o marketing da natureza a fim de atrair sensacionistas em aromas e essências provenientes de flores, óleos naturais e madeiras extraídas de projetos de exploração de ecossistemas ou de reflorestamento. Uma nota publicitária publicada numa revista mensal foi mais além, forjando a ideia de que as marcas competem entre si para proporcionar a sensação de um “flutuar mais alto”. Dizia o texto: “Imagine um passeio pelo campo depois de uma tempestade, com notas frescas de hortelã, cipreste, cera de abelha, camomila, louro, incenso e um...

Mitigação: Sobre livros, vaidades e urgências humanas

Junho de 2018 O ser humano é vaidoso, acredita que sempre terá soluções relacionadas às suas crises. Professores universitários também são vaidosos e acreditam apenas nos livros que leem. Professores de jornalismo desconsideram o aumento de público e o valor de denúncia do livro-reportagem, mesmo já lendo uma biografia ou um ensaio escrito por um jornalista. A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI) na contramão disso selecionou quatro trabalhos de conclusão de curso sobre a reportagem em formato livro dentre os sete aprovados para apresentação em seu evento anual. Tendo em vista a importância desse tipo de produção, o curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Roraima reconsiderou o potencial do jornalismo de longa extensão em formato livro e aprovou a disciplina sobre essa produção no último Projeto Pedagógico, seguindo recomendação das novas Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Jornalismo. Os livros-reportagem têm cumprido o compromis...

Alteridade: A natureza opressora e oprimida em A mulher do garimpo

Maio de 2018 Cientistas interessados no passado o viam até a segunda metade do século XX como peça de museu sob uma ótica temporal imutável. Estudos de história e de memória cultural já assumem a interferência de paradigmas do presente na angulação de fatos recentes ou remotos. A mulher do garimpo (1976), de Nenê Macaggi, considerado o romance do extremo Norte do país, não pode fugir deste filtro. A problemática começa pelo enredo cuja trama é dispersa em longas descrições históricas e de costumes regionais que não passam de efeito decorativo. O tom descritivo fracionário dizima a curiosidade no destino afortunado ou desafortunado dos personagens. A narrativa almeja ganhar ares realistas e factuais, todavia frustra suas próprias pretensões ao convergir com o propósito do apelo folhetinesco da vida sendo vivida, mas longe de ser fiel ao cotidiano por conta de sua prolongada retórica. Seu mérito é ser a produção ficcional mais expressiva do estado de Roraima na segunda metade do sécu...

Biocentrismo: Precisamos desenquadrar os animais

Abril de 2018     Viagens são momentos de boas experiências culturais, sociais e ambientais. Mas às vezes somos surpreendidos por situações adversas às nossas visões de mundo e ideologias particulares.     Nós brasileiros conhecemos o encarceramento de animais nos espaços dos zoológicos. Eles estão ali para serem vistos por seres antropocêntricos centrados no “eu” humano com a intenção de se divertir com seres enjaulados, acuados. Mas como nós somos vistos pelos animais fora de seus espaços naturais? John Berger (2003, p.31) sintetiza bem esse contato: “em parte alguma num zoológico o visitante pode encontrar o olhar de um animal. Quando muito, o olhar do animal bruxuleia brevemente e segue adiante. Eles olham de soslaio. Olham cegamente para além de nós. Escaneiam tudo mecanicamente. Foram imunizados contra o encontro, porque nada mais pode ocupar um lugar central na sua atenção”. Vivem, portanto, uma condição não natural, padronizada, planejada e encar...

Ecocentrismo: A forma e o estado da água

Março de 2018 O filme A forma da água (The Shape of Water, 2017) do diretor mexicano Guillermo del Toro, ganhador do Oscar 2018, deve chegar à Netflix ainda este ano e parece não ter sido submetido a uma crítica ambiental massificada na internet até o momento. Pode passar despercebida a “criatura” híbrida de homem e peixe encontrada na Amazônia brasileira, capturada e levada até uma base militar norte-americana onde é mantida em cativeiros para pesquisa? A narrativa forja o trânsito de comportamentos, sentidos humanos e animais do personagem “anfíbio” nos espaços aquáticos e terrestres, mas ela própria dá pistas às contestações por parte do espectador mais atento contra estas representações. Os fatos são vistos sob o ponto de vista da protagonista muda cujos desejos são satisfeitos pelo “anfíbio”. O diálogo silencioso entre os dois é mediado por ovos cozidos entregues ao humano/não humano para saciar sua fome. A pista dos sentidos construídos e transmitidos não está na forma e sim ...

Ética Ambiental: Ecocrítica, Ecomídia, Jornalismo Ambiental: convergência e diferença

Fevereiro de 2018 Os três campos certamente compartilham do que Edgar Morin chama de policrise. A crítica ambiental no panorama de um novo paradigma não dispensa discussões de problemas políticos, sociais, culturais, ecológicos e econômicos convergentes entre si (o mexicano Enrique Leff legitima isto, ao tratar de meio ambiente na América Latina). E uma análise mais apurada e interdisciplinar valoriza até mesmo as contribuições de mais de uma dessas áreas, neste caso, obedecendo à estética e à estilística de cada uma delas. Primeiro, tratemos dos paradigmas da ecocrítica, ecomídia e do jornalismo ambiental. A ecocrítica inaugurou uma tradição a partir da qual se considera a subjetividade da natureza, de seus ecossistemas, dos animais e dos vegetais, convergindo seus propósitos às perspectivas da ecologia profunda; segundo Greg Garrard, essa crítica literária é atenta ao meio ambiente como ele é e como o representamos. O teórico da ecomídia Sean Cubitt compartilha desse paradigma ao ...